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“Ninguém
está seguro”, diz Kevin
Mitnick
O
mais famoso hacker do mundo diz que os sistemas ainda são
vulneráveis apesar da evolução tecnológica

Goodstein,
estrategista de Obama: "O segredo é pensar
globalmente e agir localmente"

Kevin
Mitnick diz que a engenharia social é o artifício
mais utilizado: "Não há remendo para
estupidez. Não é que as pessoas sejam burras,
mas há sempre gente incompetente"
Ele
ficou mundialmente conhecido, virou tema de filme e se tornou
uma lenda entre os hackers. Hoje, Kevin Mitnick atua ao lado
da lei, mas continua impressionando. Atualmente trabalhando
numa empresa de segurança, ele dá palestras em
diversos países falando da vulnerabilidade dos
sistemas, mesmo com a evolução da tecnologia.
Foi assim que desembarcou na Campus Party,
em São Paulo
, lotando o auditório principal do evento.
Sobre sua antiga função, prefere intitular de
engenharia social, que define como uma forma de hacking que se
baseia na manipulação, em enganar e usar a influência
para conseguir que uma pessoa faça algo para ajudá-lo
a conseguir seu objetivo. A definição, talvez um
tanto quanto poética para o assunto, encaixa-se na própria
teoria de Mitnick, quando afirma que metade dos ataques provém
da união dessa tal engenharia social com ataques técnicos.
"Na maioria das vezes utiliza-se apenas o telefone",
diz.
Mas por que pessoas se utilizam destes artifícios?
Segundo Kevin, por ser bem mais simples do que achar uma
vulnerabilidade técnica. Por telefone, não há
sistema para detectar quem está mal intencionado.
"Não há remendo para estupidez. Não
é que as pessoas sejam burras, mas há sempre
gente incompetente", completa.
Sistemas
inseguros
Mitnick explica que, claro, os sistemas de segurança são
bem mais seguros hoje do que há dez anos, quando muitas
vezes conseguiam-se os dados de alguém simplesmente
dando um telefonema para uma central onde a pessoa tivesse
cadastro, ou no banco que fosse cliente. No entanto, Mitnick
garante que, ainda hoje, é possível conseguir
com dois ou três telefonemas os dados sigilosos de alguém.
Sempre citando exemplos, o palestrante dá a dica: os
engenheiros sociais precisam da credibilidade do outro, para
em seguida dar o bote e conseguir a informação
necessária, ou pelo menos o próximo caminho para
chegar até ela. Ele explica que as fraudes acontecem
como nos ataques de phishing (e-mails falsos), onde o grande
componente disso tudo é a engenharia social. Para
exemplificar, Mitnick, usando um chip pré-pago de uma
operadora brasileira, fez durante a palestra uma ligação
para uma operadora de cartão de créditos onde
tem conta, com o som da chamada sendo audível por todos
no evento. O motivo, mostrar que com quase nenhuma informação
e um programinha simples é possível conseguir os
dados de qualquer um. No caso, os dados eram dele mesmo, para
evitar novos problemas na Justiça. "Não
tentem fazer isso em casa, e se fizeram, não digam que
fui eu quem os ensinei a fazer", brincou.
Para exemplificar ainda mais como é simples burlar os
sistemas de segurança, ele mostrou um aparelho que
custa US$ 30 e, via wireless, capta as senhas digitadas por
pessoas conectadas ao redor. "O mecanismo de propagação
de todo malware é a engenharia social", revela.
"Desliguem
o autorun"
Mitnick falou também dos perigos de abrir quaisquer
arquivos de procedência desconhecida. "O que você
faria se achasse um pen-drive no chão? Abriria para ver
se há algo interessante ou deletaria seu conteúdo
antes de ver?", questionou, aproveitando para cutucar sua
"vítima predileta", a Microsoft. Isto porque
um hacker pode colocar um malware num pen-drive e ficar
esperando alguém plugá-lo. Se quem pegar usar o
Windows, o programa rodará automaticamente, devido ao
recurso de "autorun", que é padrão da
plataforma da Microsoft. "Por isso, por favor, desliguem
o autorun!".
Mas não é só com pen-drives que devemos
ter cuidado. Antigamente, os vírus só chegavam
em arquivos "exe". Hoje, como Mitnick mostrou ao
vivo, qualquer cavalo de troia pode ser mascarado por um
arquivo aparentemente inofensivo, como um PDF. Quando você
os abre, secretamente eles carregam um código que dá
acesso ao invasor.
Outro truque para os invasores é encontrar
vulnerabilidades em browsers (navegadores), fazendo com que,
uma vez que a pessoa entre em determinado site, alguém
secretamente tome o controle da situação.
Segundo Mitnick, todas as pessoas tendem a acreditar nas
outras, criando um sentimento de invulnerabilidade que costuma
ajudar bastante a quem visa praticar ataques. "As pessoas
veem protocolos de segurança como perda de tempo, e por
isso, quando têm uma senha complexa ou difícil de
decorar, anotam na tela do computador ou deixam sempre próximas
a elas, gerando um grande perigo para si próprias",
explica.
Mitnick explica que as bobeadas cometidas pelas pessoas são
o grande passo para a ação através da
engenharia social. Some-se isso ao fato de os hackers fazerem
pesquisas para conseguir os dados de pessoas e organizações.
Para isso, utilizam a internet, as redes sociais e, acredite,
até o que vai para a lata de lixo. A dica então
é destruir documentos importantes com fragmentadores de
papel, nunca rasgando-os a mão.
O ex-fora da lei mostrou ainda que é possível
simular, durante uma ligação, que o número
de quem está discando é de algum conhecido de
quem recebe a ligação. Para terminar, Mitnick
afirmou que as pessoas têm que saber o que é
vulnerabilidade, para não achar que estão
seguros e fazer bobagens.
REDES SOCIAIS
Estratégias
para campanhas políticas
Outro grande nome que fez parte do quadro de palestrantes da
Campus Party foi o de Scott Goodstein, estrategista na
área de redes sociais da campanha presidencial de
Barack Obama em 2008, ou, como ele prefere denominar,
"estrategista 2.0".
Goodstein afirmou que cada vez mais a população
norte-americana busca por informação na
internet. Pensando nisso, a campanha listou cerca de dez redes
sociais para atuar, algumas até que não eram
muito populares na época, como o Twitter.
"Algumas de nossas ações funcionaram super
bem, como o envio de SMS e a utilização do
Twitter. Outras, no entanto, não deram certo, como o
download de vídeos por celular", disse, culpando
as altas taxas cobradas pela operadoras e o desconhecimento
dessa tecnologia pela população. Para Goodstein,
não se pode ter medo de experimentar. Ele conta que
testava algumas redes sociais por um tempo, em determinados
locais. "O segredo é pensar globalmente, agir
localmente", ressaltou.
Outro grande trunfo apontado pelo estrategista para o sucesso
das ações durante a campanha foi terem
conseguido um forte engajamento voluntário. Ele lembrou
que o vídeo mais visto da campanha no YouTube não
foi produzido por eles.
Goodstein disse ainda que aconteceram durante a campanha ações
que eles não faziam ideia que poderiam acontecer, como
a criação, por voluntários, de um
aplicativo para iPhone. Os criadores inventaram a ferramenta,
divulgaram e distribuíram, rendendo inclusive lucro
para a campanha. (MB)
FIQUE POR DENTRO
A história de
Mitnick
O ex-cracker (hacker mal intencionado) ganhou fama nos EUA nos
anos 80 e 90 quando invadiu computadores de operadora de
celulares, empresas de tecnologia e provedores de internet.
Mas já nos anos 70, quando adolescente
em Los Angeles
, Mitnick invadiu o computador da sua escola para alterar
notas. Também passou a interessar-se pela pirataria de
sistemas telefônicos e chegou a invadir as instalações
da Pacific Bell. Foi preso em 1995 e libertado em 2000. Hoje,
Mitnick trabalha como consultor de segurança na web.
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